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I. B. R. |
Dra. Thais Pires Lopa |
" Saiba mais
sobre essa síndrome viral, diagnosticada pela primeira vez nos Estados Unidos
no início dos anos 50 e que já preocupa à bastante tempo os países europeus
e a América do Norte. E que só
agora começa a nos preocupar pelo aumento do número de animais positivos aos testes
laboratoriais de sorologia e principalmente pela pressão dos laboratórios com campanhas
comerciais maciças para implantação de um esquema de vacinação anual na propriedade.
"
I.B.R., no
português R.I.B, é a sigla usada para denominar uma síndroma viral chamada
RINOTRAQUEITE INFECCIOSA BOVINA causada pelo Herpesvirus do tipo 1.
Inicialmente foi reconhecida nos Estados Unidos
como uma complexa síndrome de doenças que provoca vários quadros clínicos e perdas
significativas na produtividade da pecuária de corte e leite.
Sua característica mais importante é a
capacidade de LATÊNCIA ( quando o vírus permanece inativo e "escondido" nas
células dos gânglios e tecido nervoso) não sendo detectado pelos exames tradicionais.
Podendo ser reativado a qualquer momento quando o animal é submetido a algum stress ou
tratamento com drogas imunosupressoras ( que provocam queda nas defesas do organismo). Se
tornando novamente transmissor do vírus ao meio ambiente através das secreções
corporais. O vírus pode persistir por vários anos em animais clinicamente curados sendo
estes considerados como reservatórios.
Essa
virose esta presente em plantéis bovinos de praticamente todo o mundo. A taxa de animais
positivos varia muito de uma região para outra, dependendo também do tipo de
exploração pecuária realizado na propriedade (confinamento, extensiva, leiteira, corte
). Quanto maior o contato entre os animais maior é o contágio.
Nos Estados Unidos e Canadá, onde a
infecção tem caráter endêmico, não existe uma política de erradicação. Há um
controle por meio de programas imunoprofiláticos, com vacinas vivas e inativadas. Porém,
rebanhos destinados a produzir sêmen, embriões e animais para exportação são
rigidamente mantidos livres da infecção.
Na Europa, alguns países obtiveram a
condição de países livres e/ou de países de doença sob rígido controle, mas com
programa de erradicação que inclui a vacinação com vacinas com marcadores genéticos,
testes sorológicos e sacrifício de animais portadores do vírus.
No Brasil, os levantamentos sorológicos
já mostram uma freqüência alta nos rebanhos tanto de leite como de carne.
Após o animal
se infectar, ocorre uma viremia ( multiplicação viral) e o vírus pode se instalar em
diferentes tecidos corporais sendo capaz de produzir diversos tipos de sintomas.
As localizações mais comuns das infeções
são:
- infeções no trato respiratório
- infeções oculares
- abortos
- infeções genitais
- infeções no sistema nervoso
- infeções generalizadas nos recém-nascidos
Em sua forma
respiratória, observa-se aumento da temperatura corporal, diminuição do
apetite, rinite, tosse e dispnéia ( dificuldade respiratória ). Com o progresso da
infecção o corrimento nasal se torna viscoso, formando crostas que quando são removidas
deixam o nariz vermelho e inflamado, pôr isso o termo "red nose", nariz
vermelho.
Uma semana após o vírus penetrar no
organismo começam a aparecer os primeiros sintomas. Em geral a forma respiratória não
causa a morte, só se o animal já estiver debilitado ou sofrer algum tipo de stress
reduzindo a resistência à outras infeções tendo o agravamento do quadro.
A forma ocular pode ocorrer junto com a forma respiratória ou sozinha. Ocorre uma severa inflamação na conjuntiva ( conjuntivite ). A infecção ocorre normalmente nos dois olhos, começando com uma descarga ocular transparente que forma sulcos na face. Raramente veremos um ponto branco ( opacidade ) no centro do olho, se isso ocorrer é devido a outra infecção associada a I.B.R.. A conjuntivite pode ser confundida com a ceratoconjuntivite infecciosa causada pela Moraxella bovis devendo ser feito o diagnóstico diferencial. Não ocorre ulceração da córnea.
O aborto
ocorre após a exposição natural à doença, onde o vírus se multiplica no trato
respiratório superior e começa a mover-se pela corrente circulatória do animal,
migrando para o útero da vaca gestante. Uma vez no útero, o feto é infectado, podendo
ocorrer em qualquer estágio da gestação. O feto morre 1 a 3 dias após ter começado a
multiplicação viral e o aborto ocorre 2 a 7 dias após a morte fetal. O processo
completo a partir da infecção inicial da vaca ao aborto pode ser curto, mais ou menos 18
dias, ou longo, 3 meses. Pôr essa razão o aborto ocorre normalmente do 6º ao 9º mês
de gestação. A taxa de aborto geralmente não ultrapassa 25%, mas em alguns surtos pode
chegar a 60%.
O vírus também causa infertilidade
temporária nas novilhas e vacas quando infectadas durante o estro ou início da
gestação, sendo difícil de ser detectado e considerado como repetição normal de cio.
O aborto pode ocorrer também depois de
vacinação de vacas prenhas não imunizadas com a vacina de vírus vivo modificado (o
vírus é apenas atenuado perdendo sua virulência, não a capacidade de se multiplicar ).
Essa vacina não é vendidas aqui no Brasil.
A forma
genital ocorre primariamente em machos e fêmeas sexualmente maduros. Nas
fêmeas, os sinais incluem descarga vulvar densa de cor castanho clara que gruda nos tufos
de cabelos da vulva que se apresenta demasiada. Ao exame, a mucosa vaginal está
avermelhada e com pústulas, por essa razão a infecção é denominada Vulvovaginite
Pustular Infecciosa. A vaca urina constantemente e balança muito a cauda. No útero, o
vírus produz uma endometrite necrosante.
No macho, a mucosa peniana fica avermelhada e com pequenas pústulas, se observa descarga
purulenta e ele urina freqüentemente. O sêmen é uma das fontes de transmissão da
doença.
A forma nervosa tem sido relatada em animais jovens. O terneiro recusa alimentação e apresenta tremores intermitentes com períodos de excitação que são caracterizados por movimentos descoordenados, corrida em círculo e tropeços. Esses sintomas são geralmente seguidos por depressão mental, física, colapso, coma e morte.
A infecção generalizada é fatal e ocorre no recém-nascido infectado ainda no útero ou logo após o nascimento. Já pode nascer com os sintomas respiratórios e infecção sistêmica.
Primeiramente, deve ser feito o diagnóstico diferencial de outras doenças das mucosas que possuem sintomas semelhantes (ex. aftosa).
O diagnóstico
laboratorial é feito de duas maneiras.
Através de testes sorológicos para
detectar o nível de anticorpos no soro sangüíneo.
As vacinas produzidas tanto com vírus
morto ( inativado ) como com o vírus vivo ( atenuado ) interferem nos testes
sorológicos, não diferenciando animais vacinados dos infectados. Isso torna difícil o
controle sorológico de um rebanho sob esquema de vacinação com essas vacinas. Na
Europa, onde se está tentando erradicar a doença, existe uma vacina com marcadores
genéticos que, mesmo por métodos sorológicos se consegue diferenciar os animais com
anticorpos vacinais daqueles infectados por infecção natural. O inconveniente desta
vacina é o alto custo de sua produção.
Por isolamento e
identificação do vírus em laboratório, sendo o material coletado das secreções
corporais ( nasal, ocular, vaginal e do feto abortado ) com um swab de algodão
esterilizado.
Como as outras infeções virais, não há tratamento antimicrobiano para a I.B.R. Os antibióticos de largo espectro só devem ser usados para prevenir perdas por infeções bacterianas secundárias que acabam aparecendo por causa da queda de resistência do organismo.
Os métodos de
prevenção ainda são muito discutidos e não são totalmente satisfatórios para o
controle efetivo da infecção. A doença é imprevisível e pode ocorrer em qualquer
época. Os rebanhos mantidos juntos, sem aquisição de novos animais, podem permanecer
livres da doença por vários anos, e de repente ocorre um surto agudo de grande
proporção.
Como prevenção, o ideal seria não introduzir
novos animais na propriedade, e caso faça isso, que tenham exame sorológico.
O controle da
moléstia depende do desenvolvimento de uma imunidade após a infecção natural ou após
vacinação. Apesar de muitos criadores não acharem satisfatória a imunidade conferida
pela vacinas atuais contra a infecção, a melhor maneira de controlar o avanço da I.B.R
é com o aumento da resistência à doença, isso é feito com vacinação apropriada.
Devemos evitar qualquer fator que possa
interferir no bom funcionamento do sistema imunológico antes da vacinação, o animal
não deve estar debilitado e deve ocorrer o mínimo de stress.
A justificativa
para a vacinação é baseada no seguinte: em animais livres do vírus, os anticorpos
vacinais vão proteger os animais contra possíveis surtos. No caso de já infectados, os
anticorpos vacinais vão evitar a eliminação do vírus no meio ambiente através da
neutralização do vírus na corrente circulatória e consequentemente impedir os sintomas
clínicos.
A questão de vacinar ou não vacas
gestantes suscetíveis durante o início do surto de I.B.R no rebanho deve ser avaliada.
Se ainda não começaram os abortos, provavelmente a vacinação irá reduzir essa
incidência, desde que, uma vacinação anterior tenha sido feita. Se os abortos já
estão ocorrendo, não devemos esquecer que muitos animais já estão expostos ao vírus,
e a vacinação não evitará o aborto destes animais, só protegerá as gestantes não
infectadas. A vacinação neste caso não reduzirá muito a incidência de abortos, por
isso vacinar antes da estação de monta.
Se estiver com problemas reprodutivos na propriedade, antes de introduzir qualquer manejo sanitário, faça um levantamento sorológico do rebanho e uma avaliação das condições sanitárias e de manejo deste, chamando para isso um Médico Veterinário que avaliará a necessidade ou não da implantação de algum tratamento preventivo ou terapêutico.
Existe a vacina com o vírus morto (inativo), que é segura em qualquer fase da criação, pois não há risco da multiplicação viral e ativação do vírus no organismo. Só que na primovacinação (primeira vez que o animal é vacinado) precisa de uma segunda dose de reforço para efetivar a proteção. Após a revacinação ainda é necessário duas semana para o nível de anticorpos se tornar adequado.
Esquema
de vacinação
A partir dos seis meses de idade, duas vacinações com intervalo de 21 a 30 dias e depois
anualmente. Principalmente antes do período de cobertura, no caso de animais destinados
à reprodução ou antes do confinamento, no caso de animais para abate.
Atenção: animais infectados um pouco antes da resposta do organismo à vacina, ao redor
de 15 dias após a 2º dose, pode vir a abortar mais tarde. Essa característica pode
erradamente por em dúvida a eficiência da vacina.
Outro tipo é a
vacina com vírus vivo modificado, que tem a capacidade de replicar-se no
organismo do animal vacinado e assim promover uma resposta imunológica maior, precisando
apenas de uma dose para ser eficaz.
Porém, animais gestantes não podem ser
vacinados ou mesmo entrar em contato com animais recém vacinados, uma vez que esses
excretam o vírus vacinal no meio ambiente e causam aborto ( a vacina não é atenuada
para o feto ). Não é encontrada no Brasil.
Uma alternativa
mais segura é a vacina com vírus vivo mutante termossensível, que
somente tem a capacidade de replicação em temperaturas inferiores à temperatura
corporal. Assim quando o vírus atinge os tecidos corporais vai perdendo a capacidade de
replicação, mas consegue ativar a produção de anticorpos.
Em alguns países a aplicação é intranasal, mas nos Estados Unidos, Canadá e aqui, por
questões de manejo, esse tipo de vacina é para uso intramuscular.
Essa vacina é segura para aplicação
em animais jovens e em vacas prenhas em qualquer estágio gestacional.
Devido o uso intramuscular, há necessidade de duas doses iniciais para alcançar um bom
nível de imunidade nos animais vacinados.
Esquema de vacinação
Vacinar terneiros no período de desmame, com duas doses com intervalo de 20 a 30 dias.
Vacinar as novilhas de reposição antes da primeira estação de monta e as vacas na
pré-estação de monta ( 30 dias antes ).
Vacinar os touros antes da estação de
monta.
Vacinar os animais destinados a engorda
pelo menos uma semana antes de serem confinados em pastagens ou currais para
suplementação.
Qualquer uma das vacinas acima interfere no diagnóstico sorológico, não tendo como diferenciar os anticorpos dos animais vacinados dos infectados. Ou seja, animais vacinados apresentam-se positivos aos testes sorológicos comuns.
Em alguns
países europeus onde são baixos os índices de infecção em programas de erradicação
da doença, pela realização de testes e eliminação de animais infectados, encontramos
uma vacina que não interfere nos testes sorológicos facilitando o controle e
erradicação. São vacinas com marcadores genéticos, que possibilita, por métodos
sorológicos, diferenciar os animais reagentes devido a vacinação daqueles reagentes por
uma infecção natural. Porém os testes sorológicos devem específicos para cada tipo de
vacina.
Essa vacina tem um alto custo de produção.
Não devemos esquecer que os terneiros só devem ser vacinados no período do desmame. A eficácia da vacina em idades menores é baixa devido a interferência dos anticorpos maternos. Se a vaca nunca foi vacinada podemos iniciar a vacinação do terneiro aos 4 meses de idade.
Bibliografia.
E. J. Richey: IBR in Beef Cattle. University of Florida- 1994
Anais do IV Simpósio Pfizer sobre Doenças Infec. e Vacinas para Bovinos / 2000
Blood - Henderson - Radostits: Clínica Veterinária